Quando o céu voltou a ser azul

Houve um tempo em que moradores de Pequim saíam para a rua sem ver o sol. Não porque estivesse nublado, mas porque o ar era tão denso que o abafava. Isso foi há apenas uma década.

Hoje, as mesmas avenidas que afogaram uma cidade de vinte milhões de pessoas são percorridas por veículos quase silenciosos, o céu tem um horizonte e os pássaros retornam às árvores. É isso que acontece quando uma cidade realmente decide mudar.

O Milagre Ambiental Chinês

Por: Gabriel E. Levy B

Há uma imagem que circulou por anos como símbolo de um desastre ambiental moderno: um grupo de turistas na Praça Tiananmen, em Pequim, posando diante de uma tela gigante que projetava a imagem de um nascer do sol. Lá fora não havia sol. Apenas um creme cinza espesso que apagava os prédios a cem metros de distância e fazia os olhos arderem.

Era janeiro de 2013, e a concentração de partículas poluentes no ar da capital chinesa havia ultrapassado quinhentas unidades, mais de cem vezes o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Os médicos chamavam isso de Airpocalypse.

Hoje, essa mesma praça tem um céu acima dela. Não em uma tela, mas de verdade: um azul que às vezes parece recém-pintado, interrompido por nuvens brancas e, ao fundo, pela silhueta das Colinas do Oeste, que permaneceram invisíveis por décadas sob a fumaça.

Pequim registrou mais de trezentos dias com ar limpo ou aceitável em 2025.

Um fotógrafo local que fotografa o horizonte do mesmo ponto do distrito financeiro há doze anos publicou recentemente suas imagens em paralelo: as de 2013 são cinzas, opacas, sem profundidade. Os de hoje têm um horizonte.

O que aconteceu entre esses dois momentos não foi mágica nem sorte climática. Foi uma decisão política sustentada por mais de uma década, com um elemento central que transformou não apenas o ar, mas também o som, o sonho e a fauna de duas das cidades mais populosas do planeta: substituir, de forma massiva e acelerada, veículos de combustão interna por veículos elétricos.

A história de Pequim e Xangai é, antes de tudo, a história do que acontece quando uma cidade decide seriamente mudar seu movimento.

A guerra contra a fumaça

A poluição do ar na China tem raízes antigas: décadas de industrialização acelerada, milhões de veículos de combustão e cidades que cresceram mais rápido do que suas instituições podiam regular. Em 2013, Xangai registrou médias anuais de partículas finas em torno de noventa microgramas por metro cúbico. Pequim chegou a quase o dobro. Ambas estavam entre as capitais mais tóxicas do mundo.

O governo chinês respondeu no mesmo ano com o que oficialmente chamou de Plano de Ação para a Prevenção e Controle da Poluição do Ar, embora nos corredores do poder se falasse, sem eufemismos, de uma guerra contra a poluição. Não foi apenas retórica: Pequim fechou sua última usina a carvão em 2018 e reduziu o consumo desse combustível em noventa e sete por cento em doze anos. Mais de três mil empresas poluentes foram fechadas ou transferidas para fora da área metropolitana. Milhões de veículos com motores antigos foram eliminados e metas vinculativas foram estabelecidas para a eletrificação do transporte público.

Mas o verdadeiro ponto de ruptura veio com os carros.

A China passou de pouco mais de um milhão de veículos elétricos vendidos em 2020 para quase treze milhões em 2024, quarenta e um por cento de todas as vendas de carros no país.

Em julho daquele ano, ele ultrapassou um limiar que poucos imaginavam tão próximo: pela primeira vez na história, mais da metade dos carros novos vendidos na China eram elétricos. Em meados de 2025, quase trinta e sete milhões de veículos de nova energia circulavam em suas ruas, apoiados por uma rede de dezenove milhões de pontos de recarga. Para ter uma ideia da escala: a Colômbia hoje tem menos de dois mil habitantes.

Xangai foi ainda mais agressiva em sua política de incentivos. Nessa cidade, obter uma placa de carro a gasolina custa, em média, o equivalente a doze mil dólares em leilão público. O de um carro elétrico é gratuito.

O resultado é que hoje noventa e seis por cento dos ônibus e noventa e cinco por cento dos táxis na cidade são elétricos. E a cidade possui mais de 1,5 milhão de veículos de nova energia registrados, 71% deles puramente elétricos.

Uma cidade que soa diferente

Os dados sobre qualidade do ar são impactantes, mas há uma coisa que os números não capturam totalmente: a forma como a experiência de viver nessas cidades mudou. Pequim reduziu sua concentração de partículas finas em setenta por cento entre 2013 e 2025. Isso equivale, segundo pesquisadores da Universidade de Chicago, a mais quatro anos e meio de expectativa de vida para cada habitante da cidade. São anos reais, em corpos reais, em famílias específicas.

Mas também há algo mais imediato, quase íntimo. Veículos elétricos produzem entre um e cinco decibéis a menos que veículos de combustão. Em uma rua movimentada, isso pode não parecer muito, mas em uma cidade de vinte milhões de pessoas a diferença se acumula até se tornar palpável. Quem caminha pelas avenidas de Xangai hoje descreve uma nova experiência: a de caminhar por oito faixas de trânsito sem o constante ronco dos motores, sem o cheiro de gasolina queimada. Algumas áreas do centro implementaram restrições ao uso de alto-falantes. Em uma cidade asiática de alto nível, isso teria parecido uma fantasia há dez anos.

Pessoas que vivem em Pequim há décadas falam dessa mudança com uma mistura de espanto e alívio. Uma moradora de trinta anos disse que costumava sentir como se inalasse poeira toda vez que saía de casa. Outro, de volta à cidade após anos de ausência, confessou que o que mais a surpreendeu não eram os novos arranha-céus, mas o horizonte: um céu azul intenso com colinas ao fundo que ela nunca tinha visto do centro. O limiar do que é considerado normal em uma cidade pode avançar tão lentamente que você nem percebe. Até que alguém chega de fora e aponta o que não está mais lá.

E os pássaros voltaram. Pequim hoje possui mais de quinhentas espécies de aves registradas dentro de seus limites urbanos, incluindo vinte e sete sob proteção máxima. Espécies que não eram avistadas há setenta anos reapareceram em reservas periurbanas. Nos parques do centro, que antes eram espaços cinzentos e silenciosos, o canto dos pássaros voltou a fazer parte da paisagem sonora diária. A biodiversidade, que parece um luxo abstrato quando o ar arde e o barulho atordoa, acaba sendo uma consequência natural das cidades que respiram.

O mundo que ainda respira mal

Enquanto Pequim celebrava seu céu recuperado, outras cidades receberam o título que ela deixou vago. Nova Délhi registrou uma média de cento e oito microgramas de partículas finas por metro cúbico em 2024, o maior número em cinco anos e mais de vinte vezes o limite recomendado pela OMS. Treze das vinte cidades com o pior ar do mundo estão na Índia. Chade, Bangladesh e Paquistão lideram a lista dos países mais poluídos do planeta, segundo o relatório mais recente da IQAir.

Atualmente, apenas sete países no mundo cumprem a diretriz de qualidade do ar da OMS: Austrália, Bahamas, Barbados, Estônia, Granada, Islândia e Nova Zelândia. Noventa e um por cento das cidades monitoradas no relatório global de 2024 excedem o limite recomendado. A poluição do ar mata mais de sete milhões de pessoas no mundo todo todo a cada ano, mais do que AIDS, malária e tuberculose juntas.

Mas há sinais de que o modelo chinês está se expandindo. Oslo, Noruega, atingiu uma participação próxima a noventa e cinco por cento das novas vendas de veículos elétricos em 2024 e reduziu as emissões de CO₂ do transporte em mais de trinta por cento. Em 2017, Shenzhen foi a primeira grande cidade do mundo a eletrificar cem por cento de sua frota de ônibus, mais de dezesseis mil unidades. E Santiago de Chile hoje opera a maior frota de ônibus elétricos fora da China, com mais de três mil unidades, conseguindo reduzir as emissões de seu transporte público em oitenta por cento na última década.

O que a América Latina pode aprender e o que ainda precisa aprender

A América Latina não está na pior categoria do ranking mundial de poluição, mas também não está na que deveria estar. Bogotá registrou uma média anual de dez microgramas de partículas finas em 2025, o melhor resultado de sua história e ainda o dobro do que a OMS considera seguro. Medellín marcou treze vírgula quatro, com episódios sazonais agravados pela geografia do Vale de Aburrá, que todos os anos forçam a ativação de alertas ambientais. A poluição do ar causa entre oito e quinze mil mortes prematuras na Colômbia a cada ano, com um custo econômico de cerca de um e meio por cento do PIB.

Há progresso real. Hoje, a TransMilenio opera cerca de 1.500 ônibus elétricos, uma das três maiores frotas desse tipo fora da China, e está comprometida a ser 100% elétrica até 2036. As vendas de veículos elétricos cresceram duzentos e três por cento no primeiro semestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior. A BYD, gigante chinesa que domina o mercado global de energia elétrica, já representa quase metade das vendas na Colômbia. Esses são sinais encorajadores.

Mas o ritmo ainda é insuficiente. Noventa e seis por cento dos veículos que circulam nas ruas colombianas continuam a usar combustíveis fósseis. A infraestrutura de carregamento elétrico possui menos de dois mil pontos em todo o país. E a política pública ainda carece dos fortes incentivos econômicos que fizeram a diferença na China: lá, tornar o registro de um carro elétrico gratuito não era um gesto simbólico, mas uma alavanca para uma transformação massiva.

As lições do caso chinês são transferíveis, embora não idênticas. Primeiro: eletrificar o transporte público tem um impacto social maior do que subsidiar a compra de carros elétricos particulares, porque beneficia diretamente aqueles que mais sofrem com a poluição e conseguem evitá-la menos. Segundo, incentivos financeiros funcionam melhor do que campanhas de conscientização quando se trata de mudar comportamentos em larga escala. Terceiro: a infraestrutura de carregamento não pode ser uma promessa após a venda do veículo; Tem que vir primeiro, ou pelo menos na hora. E quarto, talvez o mais difícil de replicar: precisamos de uma vontade política que não mude com cada governo.

A poluição urbana não é um fenômeno natural. É o resultado cumulativo de milhões de decisões: que tipo de ônibus é comprado, quais placas são taxadas, quais fábricas fecham, o que é exigido da indústria. Pequim provou isso da única forma que importa: mudando a realidade. Hoje, seus habitantes podem conversar na rua sem gritar, dormir com a janela aberta, ver o horizonte pelo centro. Pássaros cantam nos parques e as colinas voltaram ao horizonte. Tudo isso, que parece pequeno, é enorme. É isso que uma cidade deve às pessoas que nela vivem.

Em resumo, Pequim não limpou seu céu rezando ou esperando que a tecnologia chegasse por conta própria. Ele fez isso decidindo. Fechando fábricas, trocando ônibus, colocando um preço na poluição e deixando livre o que não polui. O resultado não é apenas um índice de qualidade do ar: são as pessoas que dormem com a janela aberta, as crianças que brincam do lado de fora e os pássaros que cantam onde antes havia apenas trompas. Isso também está sendo bem governado.

Principais fontes

  1. IQAir – Relatório Mundial de Qualidade do Ar 2024. Dados globais de PM2.5 por cidade e país. iqair.com
  2. Índice de Qualidade de Vida do Ar (AQLI) / Universidade de Chicago – China: Plano Nacional de Ação para a Qualidade do Ar (2013). Análise do impacto na expectativa de vida. aqli.epic.uchicago.edu
  3. Governo de Pequim – Pequim registra céus azuis em 95,3% dos dias de 2025. Relatório oficial de qualidade do ar. english.beijing.gov.cn
  4. SCIO (Escritório de Informação do Conselho de Estado da China) – Da fumaça ao sol: a campanha de ar limpo de Pequim que dura uma década dá frutos. english.scio.gov.cn
  5. CnEVPost – A participação da NEV em Xangai ultrapassa 1,5 milhão, sendo 71% exclusivamente elétrico. Junho de 2025. cnevpost.com
  6. Global Times – A produção e vendas de NEV na China ultrapassam 12 milhões cada, liderando globalmente em 2024 pelo 10º ano. Janeiro de 2025.
  7. ScienceDirect – Sobre o impacto da transição dos veículos elétricos na poluição sonora urbana. Estudo acadêmico, 2025.
  8. ScienceDirect – Benefícios para a saúde da eletrificação de veículos por meio da poluição do ar em Xangai, China. 2024.
  9. Dialogue Earth – Ganhos olímpicos: Estudo destaca o progresso da China na poluição do ar desde 2008. dialogue.earth
  10. Instituto de Recursos Mundiais – Como Shenzhen, China, construiu a maior frota de ônibus elétricos do mundo? wri.org
  11. Ônibus Sustentável – Santiago do Chile: frota de ônibus elétricos e emissões. sustainable-bus.com
  12. ColombiaOne – Ranking Global de Poluição 2025: Qual é a posição da Colômbia? Março de 2026. colombiaone.com
  13. Ministério do Meio Ambiente da Colômbia – Colômbia e o mundo estão avançando na luta contra a poluição do ar. minambiente.gov.co
  14. Portal de Mobilidade – Vendas de veículos eletrificados na Colômbia em dobro diesel no primeiro semestre de 2025. mobilityportal.eu
  15. Latam Mobility – Bogotá expande a frota elétrica TransMilenio com 269 novos ônibus de zero emissão. latamobility.com
  16. ICLEI Mobilidade Sustentável – Limpando os céus: como Pequim enfrentou a poluição do ar e o que está por vir. iclei.org
  17. Coalizão Clima e Ar Limpo – As melhorias na qualidade do ar em Pequim são um modelo para outras cidades. ccacoalition.org
  18. The Nature Conservancy – Um Lugar para a Natureza em Xangai. nature.org
  19. ResearchGate / Science.org – Biodiversidade de Aves Aumentou com Espaços Verdes Urbanos em Pequim (estudo de 40 anos). spj.science.org
  20. Damian Holmes – Como os veículos elétricos estão mudando os sons das ruas de Xangai. damianholmes.com
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